Língua Japonesa

“Eu quero jogar karuta, mas eu não sei japonês!!”

Nada tema: você NÃO precisa saber! Tudo que você precisa é conseguir ler o hiragana. Aqui neste post vamos falar um pouco sobre os sistemas de escrita que se usam no Japão, apesar de apenas dois deles aparecerem no jogo de karuta. Informação nunca é demais, né? Você sabia que diferentemente do ocidente, no qual só temos um alfabeto, no Japão usa-se quatro sistemas de escrita, e simultaneamente?

No Japão antigo, não havia língua escrita. Acredita-se que a primeira introdução foi por volta do século V, quando monges budistas voltaram da China trazendo com eles textos em kanji (que são caracteres originalmente chineses). Para possibilitar que os japoneses lessem os textos chineses, foi desenvolvida uma espécie de conjunto de sinais que era transcrita ao lado dos kanjis. Esses sinais eram bem curvilíneos, de modo que fosse fácil para que inclusive as mulheres pudessem escrever (elas não tinham educação superior que permitisse ler e compreender kanjis): era o nascimento do hiragana. O katakana, outro silabário de linhas mais retas, veio posteriormente, como “simplificação” do hiragana. O quarto sistema de escrita utilizado pelos japoneses nos dias de hoje é o alfabeto romano (ou latino), o mesmo que usamos. Para escrever números, normalmente usa-se os algarismos arábicos, mas também há a representação dos mesmos em kanji.


Silabário de traços mais redondos, é usado para escrever as palavras que não têm representação em kanji (ou se os kanjis são muito difíceis), para flexionar os verbos e adjetivos, e para representar as partículas gramaticais.

tabela-hiragana

É o único sistema de escrita do japonês que você precisa saber para jogar karuta, uma vez que as cartas de pegar (torifuda) contém a segunda parte do poema escrita com ele. As colunas do ka, sa, ta e ha mudam de leitura quando acrescentados dois traços na parte superior direita (conhecido como tenten). Exemplos: か (ka) vira が (ga), た (ta) vira だ (da) e assim por diante; você pode saber mais sobre isso e outros pormenores que não vamos mencionar aqui no artigo da Wikipedia. Na época em que os poemas do Hyakunin Isshu foram escritos, no entanto, ainda não se usava essa modificação, então não há o tenten no baralho oficial, embora as palavras já fossem lidas com a sonoridade diferente.

Originalmente o hiragana tinha 48 caracteres, mas dois caíram em desuso: ゑ (we, lê-se “e”) e ゐ (wi, lê-se “i”). No entanto, como os poemas do Hyakunin Isshu foram escritos há muito tempo atrás, esses caracteres aparecem em alguns deles, então é bom ficar de olho. 😉


Silabário de traços mais retos, o katakana é usado principalmente para escrever palavras de origem estrangeira e às vezes para designar animais ou legumes, plantas que não têm representação em kanji. Também é usado para onomatopeias ou quando deseja-se chamar atenção para alguma palavra em específico.

tabela-katakana

No jogo de karuta e no Hyakunin Isshu, esse silabário não aparece em momento algum.


  • Kanji (cerca de 2 mil ideogramas na escrita do dia-a-dia)

Os kanjis vêm da China e, diferentemente do hiragana e do katakana, não representam uma sílaba, e sim uma palavra, uma ideia. A maioria dos kanjis foi sendo modificada e simplificada conforme o tempo foi passando, e como as modificações foram diferentes em cada região, hoje o mesmo kanji original é ligeiramente diferente no Japão e na China. A leitura também é diferente, mas o significado geralmente é o mesmo. Só que na China é absolutamente TUDO escrito em kanji, enquanto no Japão os kanjis são usados apenas para escrever as palavras mais importantes da frase, como substantivos (inclusive nomes próprios) e radicais de verbos e adjetivos. O restante é tudo escrito em hiragana ou katakana, dependendo da necessidade.

A maioria dos kanjis pode ser lida de mais de uma maneira, porque além da leitura japonesa (kun’yomi) o Japão também “pega emprestado” a leitura chinesa (on’yomi). Há algumas regras que determinam quando se usa uma leitura ou outra, mas há tantos casos específicos que ouso dizer que na verdade se aprende mais na prática. Um exemplo: 読む (yomu) é o verbo “ler”. 者 (mono) quer dizer “pessoa”. 読者 é uma palavra que une os kanjis de “ler” e “pessoa”; qual o significado? Isso mesmo, “leitor”! Agora a leitura dessa palavra… é dokusha. Nada a ver com o “yomu” e o “mono” de antes, né? XD

Quando kanjis que não são usados com muita frequência aparecem em publicações, normalmente trazem uma pequena transcrição em hiragana ao lado, que é conhecida como furigana. Mangás e livros para um público mais jovem contam com furigana em todas as palavras. Na escola, testes de kanji são aplicados com frequência para manter os ideogramas frescos na cabeça dos alunos. É dito que as crianças não conseguem ler jornal (!!!) antes de entrar no colegial, porque a escrita é muito complexa e eles ainda não têm repertório (em jornais, para economizar espaço, escreve-se muita coisa em kanji, o que torna o texto difícil).

Os poemas do Hyakunin Isshu, embora contenham kanjis, contam com furigana na maioria dos baralhos, ou seja, não é necessário saber lê-los, basta saber o hiragana. 🙂


  • Alfabeto romano (26 letras)

É o nosso alfabeto. Usado principalmente para transcrever a própria escrita japonesa, num processo chamado romanização (ou romaji, em japonês). A romanização também aparece em material didático e na maioria das placas das grandes cidades, estações e aeroportos, o que facilita a vida dos estrangeiros. Depois do fim da Segunda Guerra, o japonês romanizado passou a ser ensinado nas escolas, e hoje é essencial sabê-lo, pois é desta maneira que se insere textos em computadores.

Placa da estação de Shinjuku, com a escrita em kanji, hiragana e romaji.

Placa da estação de Shinjuku, com a escrita em kanji, hiragana e romaji.

As letras do alfabeto romano também aparecem misturadas a textos, anúncios, etc, escrevendo palavras estrangeiras quando o uso do katakana não dá muito certo. Exemplo: ninguém escreve シーディー, o usual é “CD” mesmo.


Esperamos que tenham gostado e não se assustem, aprender hiragana não é um bicho de sete cabeças. Com um pouco de força de vontade e prática, você chega lá. 🙂

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