A partida do desafiante 2020: Nossas impressões

No dia 15 de novembro de 2020, aconteceram as partidas que determinaram os desafiantes de queen e meijin do ano que vem. Os candidatos foram: Yuri Yamazoe e Soujirou Jimi, representando a região Oeste, e Yui Takahashi e Masayoshi Kawase, representando a região Leste. Já havíamos compartilhado o perfil de cada um deles previamente aqui no blog.

Esq. para dir.: Yamazoe, Takahashi, Jimi e Kawase

Devido ao coronavírus, uma série de precauções foi tomada. Todos, inclusive os jogadores, ficaram de máscara em tempo integral, e foi avisado que as janelas seriam abertas periodicamente. Os leitores foram os únicos que tiraram as máscaras, e foi colocada uma divisória de acrílico/vidro em frente à mesa, para evitar que partículas se dispersassem durante a leitura. Além disso, a plateia já reduzida foi acomodada em cadeiras ou almofadas dispostas bem distantes umas das outras.

Yuki Suetsugu, a autora de Chihayafuru, não estava presente, porém estava assistindo pelo Youtube e comentou algumas vezes no chat ao vivo. Havia muitos estrangeiros comentando, ficamos surpresos com a quantidade de comentários em inglês e espanhol que muitas vezes acabavam por superar os em japonês (até os apresentadores comentaram sobre isso!).

Diferentemente das partidas de Queen e Meijin que acontecem em janeiro, essas de agora tiveram uma transmissão mais simples, com menos câmeras e sem replays em câmera lenta. Isso tornou um pouco mais difícil de acompanhar, porém conforme os jogos foram evoluindo conseguimos entender que cartas estavam em jogo e as estratégias de cada jogador graças a seus movimentos.

Neste post comentaremos as partidas e resultados, e linkaremos também o vídeo de cada uma. A transmissão original com cerimônia de abertura e encerramento e entrevistas também vai ficar no canal, e vocês podem assistir aqui.


Queen

1ª partida:

A leitura da primeira partida foi feita por Inaba, uma personalidade muito especial para o Meguriai. Para quem não sabe, ele é o leitor padrão do aplicativo Wasuramoti. Por muito tempo, a leitura do Inaba foi a única que tivemos para treinar.

Yamazoe e Takahashi possuem movimentos limpos e são bem velozes, observado através das varridas de ambas durante o jogo. Takahashi é mais agressiva, parecendo até que ignora as próprias cartas durante o jogo. Por outro lado, Yamazoe parece prestar atenção em todas as cartas do jogo, mesmo que reaja mais devagar no próprio campo com frequência

Takahashi estava nervosa e bem incomodada com a máscara, já na segunda jogada esqueceu de passar uma carta quando Yamazoe cometeu falta. Logo em seguida cometeu uma falta chamada torizon (apelidada de “torizão” carinhosamente por nós), quando se pega a carta certa, mas ao mesmo tempo comete uma falta. Essa dupla situação confundiu bastante quem estava assistindo e deve ter tirado a concentração de Takahashi, que só foi conseguir retomar na metade do jogo. Para piorar, várias cartas seguidas foram lidas em seu campo, impedindo que ela utilizasse seu estilo de jogo ofensivo.

Takahashi só foi conseguir pegar uma carta de sua oponente quando a diferença já era de 9 cartas, que é uma situação possível de superar, mas exige bastante esforço e sorte para conseguir fazê-lo contra uma jogadora como Yamazoe. Para isso, ela precisaria de jogadas perfeitas, o que não aconteceu. Pelo contrário, Takahashi cometeu duas faltas duplas seguidas, aumentando a diferença para 13 cartas e praticamente confirmando sua derrota no meio do jogo. No final, o jogo acabou com uma vitória de Yamazoe por 14 cartas.

2ª partida:

A leitura da segunda partida foi feita pelo Hiromoto, que possui uma voz agradável, tornando fácil distinguir os poemas.

Depois de perder a primeira por tantas, dava pra ver que a Takahashi estava nervosa, treinando bastante o movimento em toda carta que era lida. No entanto, mesmo quando eram lidas cartas mortas, dava pra ver Yamazoe reagindo antes e isso pode colocar bastante pressão no oponente se considerarmos que a Takahashi não estava conseguindo pegar muitas cartas.

Aqui aconteceu a mesma coisa que na primeira partida. Takahashi, que tem uma postura mais ofensiva (foco no campo do oponente), ficou acuada ao não conseguir pegar diversas cartas lidas em seu próprio campo, o que já era esperado. A questão é justamente o jogo iniciar com várias cartas sendo lidas no campo dela, falta de sorte. Takahashi não conseguiu pegar nenhuma carta das 4 primeiras que saíram. Dentre essas estava sua carta preferida “Nagaraeba”.

Contudo, Takahashi conseguiu mostrar seu estilo de jogo ao conseguir diminuir a diferença pegando várias cartas do lado direito de Yamazoe e recuperando sua confiança. Apesar de ter conseguido segurar por mais tempo, o resultado não foi muito diferente da primeira partida. Com o passar das rodadas, Yamazoe começou a esvaziar seu lado direito, aquele em que Takahashi havia conseguido pegar várias cartas seguidas. Além disso, Takahashi assumiu uma postura mais defensiva, fazendo com que a diferença só aumentasse até sua derrota ser consolidada com 13 cartas de diferença.

Para sua primeira aparição, Takahashi mostrou uma boa performance. Destaque para o movimento dela em “Momoshiki ya” na primeira partida. Mesmo com uma diferença tão grande, ela não desistiu do jogo.

O pessoal da organização e a própria queen atual, Honda, que estava assistindo as partidas, parabenizou Takahashi por seu ataque poderoso e por ter chegado até aqui em tão pouco tempo; foi uma experiência importante para ela. Por mais que desta vez ela tenha ficado muito nervosa e se deixado pressionar pela força de Yamazoe, temos certeza que ela não irá desistir e continuará jogando karuta. Resta saber quando – e se – a veremos nesse torneio novamente. Esperamos poder ver mais do estilo de jogo dela no futuro.

Quanto a Yamazoe, ela teve um bom desempenho e cometeu poucos erros. Seu estilo de ataque me lembrou um pouco o do Rafa, do Meguriai: no campo do oponente ela procura mirar sempre na carta certa, para não dar chance de discussões, mas não abandona o próprio campo, prefere usar movimentos mais abertos para atingir várias cartas de uma vez. 

Uma boa revanche nos espera na partida de Queen esse ano, mas não do jeito que vocês devem estar imaginando. Explicamos: na Chihayafuru Cup desse ano, Yamazoe ganhou de 15 cartas de Honda. Portanto, vai ser interessante vê-la defender seu título. É a terceira vez que Yamazoe consegue a vaga de desafiante, e pelo visto não há nada que conseguirá detê-la! Honda, que virou queen agora em 2020 e com certeza irá defender seu título com tudo que tem, disse que acha o karuta dela maravilhoso e que com certeza muitas pessoas ficam inspiradas e querem jogar como ela. Vamos aguardar até janeiro para saber quem sairá vitoriosa.


Meijin

1ª partida:

A disputa masculina foi bem acirrada. Kawase teve uma pequena vantagem e ficou algumas cartas na frente durante boa parte do tempo, mas os jogos ficaram quase empatados até o final. Assistir jogos assim nos deixa ansiosos e nervosos, porém é muito mais divertido. O próprio meijin, Kumehara, estava assistindo as partidas e comentou no final que ficou tenso o tempo todo.

Jimi e Kawase possuem um estilo muito agressivo e seus movimentos em cartas mais curtas (1 e 2 sílabas decisivas) são muito bonitos. No entanto, aconteceu um festival de erros de ambos durante a partida. Seja ao demorar para reagir em alguma carta, ou mesmo ao cometer inúmeras faltas. No início, Kawase estava conseguindo pegar mais cartas e conseguiu abrir vantagem porque seu oponente errou quase tanto quanto ele. Nesse começo de partida foram lidas muitas cartas em campo.

Contudo, aproximadamente na metade do jogo, começou a sair muita carta morta, o que parece ter dado tempo aos participantes para respirar fundo e controlar as faltas. Isso pode ter contribuído para que Jimi se mantivesse calmo e não perdesse a concentração enquanto Kawase ia aumentando sua vantagem, que chegou a 8 cartas enquanto a partida se encaminhava para o final.

A partida foi marcada por movimentos estranhos de ambos, principalmente em cartas mais longas (a partir de 3 sílabas, mas mais óbvio nas de 5 e 6 sílabas). No final, Kawase errou em momentos decisivos, enquanto Jimi manteve um jogo preciso, pegando várias cartas. Apesar da desvantagem, conseguiu se manter no ataque, desestabilizando o oponente. Isso foi decisivo para o resultado da primeira partida, na qual Jimi conseguiu virar e vencer por 3 cartas.

2ª partida:

A combinação de cartas em jogo pode mudar o tipo de movimento necessário durante uma partida. Durante a primeira partida, havia uma maior variedade de famílias de sílabas. De um total de 27 famílias diferentes, é possível que em um jogo apareçam todas, mas também é possível que apareçam apenas 10. Essas infinitas possibilidades se originam da permutação do total de 100 cartas em combinações de 50 cartas que vão ser usadas em cada jogo. Esse é um dos fatores que torna o karuta tão interessante e, cada partida; única. (Para saber mais sobre as famílias de sílabas clique aqui). Na segunda partida, houve uma variedade muito menor e apareceram mais duplas de cartas, se refletindo no estilo de jogo de Jimi e Kawase. Se antes predominava a velocidade, aqui predominou a reação rápida.

Na divisão masculina, é mais comum a partida se tornar uma competição de reação. A diferença se comparado com as mulheres parece grande, mas sempre reagir rápido não significa pegar as cartas. Principalmente se considerarmos que se joga por horas a fio e é inevitável sentir o cansaço depois de um tempo. Toda energia que puder ser economizada é muito bem-vinda. Ao reagir apenas às cartas que estão em jogo, conseguimos jogar em alto nível por mais tempo.

Outro problema relacionado a isso é o tempo. Existem três momentos em que podemos pegar a carta jogando karuta: 1) antes da sílaba decisiva ser lida, 2) ao mesmo tempo em que a sílaba decisiva é lida, e 3) depois que a sílaba decisiva é lida. Pegar a carta antes da sílaba decisiva pode ser um mau negócio, pois existe o risco de cometer faltas, e esperar demais pode fazer com que seu oponente pegue antes de você. 

Então tudo bem, é só pegar a carta no momento em que a sílaba decisiva é lida, certo? Mas isso não é tão simples quando estamos tentando reagir ao som o mais rápido possível. Aumentam as chances de fazer falta e aumenta a chance de reagir primeiro em direção à carta errada. Por exemplo, se estiverem em jogo TSUKImireba e TSUKUbaneno em campos opostos, ao ouvir TSU, é possível escolher a direção de uma dessas cartas para reagir. No entanto, ao fazer isso, as chances de pegar a outra carta diminuem, caso ela seja a correta, porque o oponente terá mais tempo para fazer seu movimento. 

Enfim, tudo isso para falar que em grande parte do tempo, foi exatamente isso que aconteceu na segunda partida. Os movimentos bonitos em cartas de sílabas curtas ainda estavam lá e tivemos a oportunidade de ver cruzados muito bem feitos tanto por Jimi quanto por Kawase. Contudo, erros de tempo apareceram, o tipo de erro que não se espera em uma partida de alto nível.

Além disso, mais uma coisa me chamou atenção: o tanto de vezes que eles mudaram cartas de lugar em ambas as partidas. São estratégias totalmente permitidas se utilizadas com moderação, mas é incomum ver jogadores fazendo isso em partidas de Queen e Meijin. 

Nesse conjunto, Kawase teve o azar de ter reagido em direção à cartas erradas e de cartas no campo de Jimi serem lidas numa ordem conveniente. Um exemplo fictício: vamos imaginar que Jimi estivesse com TSUKImireba e, ao ser lida TSUKUbaneno, Kawase reagiu rapidamente em direção ao campo de Jimi, sem pegá-la, pois não era a carta correta. No entanto, na rodada seguinte, a carta correta foi lida e Jimi conseguiu reagir antes e pegar a carta.

A sorte é sim um fator considerado no karuta, mas não deixa de ser frustrante quando se perde sabendo que teve um bom desempenho. Mesmo com a situação desfavorável, Kawase passou boa parte do jogo com uma pequena vantagem e acabou sendo derrotado em um sorteio (perdeu por uma única carta de diferença).

Kawase obviamente ficou muito frustrado, afinal, há dois anos ele estava exatamente na mesma posição, perdendo a partida do desafiante – e quem ganhou dele foi ninguém menos que Kumehara, o atual meijin! É mesmo uma pena que ele tenha perdido, por tão pouco, a chance de tentar a revanche. Houve alguns erros por parte dele, mas Jimi também errou bastante, então podemos dizer que Kawase teve muito azar.

Em entrevista, Jimi disse que não desistiu até o fim pois sabia que muitas pessoas ficariam bravas com ele caso perdesse. Ele tem consciência de que ganhou por pouco e que lhe falta experiência, e foi aconselhado pelos veteranos da associação a treinar muito nesses dois meses que antecedem a partida de meijin. Ele pensou bem na hora de passar cartas e também contou com a sorte, mas cometeu diversos erros, perdendo algumas cartas de bobeira, e isso é fatal contra um oponente que erra pouco. Então resta a ele trabalhar nisso e se esforçar bastante para superar suas fraquezas, sem se deixar abalar pela pressão. Não podemos tirar-lhe o mérito da vitória – os dois jogos foram muito apertados, não é qualquer um que consegue manter a calma e virar tão no finalzinho como ele fez (nas duas partidas!). Se conseguir o título em janeiro, será o meijin mais novo da história e também o primeiro meijin de Fukuoka.


Agradecemos a todos que participaram da nossa chamada de áudio durante a transmissão das partidas! Foi muito divertido, e esperamos que tenham gostado e entendido um pouco mais do jogo. Desejamos sorte aos dois desafiantes e temos certeza que em janeiro as partidas vão pegar fogo! Fiquem ligados que provavelmente iremos fazer a cobertura também!

4 comentários sobre “A partida do desafiante 2020: Nossas impressões

  1. Ótimo resumo!! Deu pra ficar tenso aqui!
    Eu já sou #TeamJimi e tô torcendo pra ele virar meijin!
    Foi legal ver que eles também fazem bastante falta, falta dupla seguida… #gentecomoagente

    Curtido por 1 pessoa

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